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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Edição de novembro: poetas convidados (parte 5)

Fechando o elenco de convidados do Eco de novembro: Marília Garcia.



blind light

aqui a luz faz o contrário de iluminar, é como
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
          a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena

silêncio

aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9

– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
                                   só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
                                   imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo


Sobre a autora: Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979) publicou os livros 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify, 2007) que, em 2013, foi traduzido para o espanhol e publicado na Argentina pela Vox Editorial, Engano geográfico (7letras, 2012) e Um teste de resistores (7letras, 2014). Edita a revista de poesia Modo de Usar & Co com os poetas Angélica Freitas e Ricardo Domeneck. Trabalhou durante dez anos no mercado editorial, tendo participado do comitê editorial de várias revistas literárias, como a Inimigo Rumor, a Ficções e a Lado 7.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Edição de novembro: poetas convidados (parte 4)

Outra poeta que vai fazer parte do elenco de convidados da edição de novembro do Eco: Laura Assis.




Chão

O silêncio
não é o melhor meio
de conter acidentes.

corpo escolha luz sorte
detalhe perda relógio tudo
existe além da linguagem

(seu nome:
serial de rumores
que nada diz
sobre seus gestos)

Talvez ler
o livro do mundo
seja também
saber perdê-lo.

Antes do ruído
a vida é.


Sobre a autora: Laura Assis nasceu em 1985 em Juiz de Fora, MG. É graduada em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFJF. Atualmente cursa doutorado em Literatura na PUC-Rio e é produtora editorial. Publicou textos em jornais e revistas como Plástico Bolha, Tribuna de Minas, Um Conto e Lado 7 e em sites como Amálgama e Posfácio. Mantém o blog Página 29. Seu primeiro livro, Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014), será lançado em novembro.


Confira também o booktrailer do livro Depois de rasgas os mapas, que será pré-lançado no Eco:





Edição de novembro do Eco Performances Poéticas
Dia 14/11/2014, sexta-feira, a partir das 19 horas.
No Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro, JF)
Entrada franca

Evento no Facebook: http://on.fb.me/1xmCI7E


Edição de novembro: poetas convidados (parte 3)

Mais um dos poetas convidados da edição de novembro do Eco: Frederico Spada Silva.




CISMA
(Estudos para uma epígrafe, 2)

No exílio,
ansiava o tempo
em que florescessem
as cerejeiras:
o encanto
dispensava palavras,
e a língua,
sua grande fratura,
já não o denunciava.


Sobre o autor: Frederico Spada Silva é doutorando em Literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio. Mantém o canal Juiz de Fora - História lírica, com depoimentos de poetas ligados à cidade (http://www.youtube.com/user/poesiaemjf/videos), e é autor de Arqueologias do olhar (Funalfa, 2011) e Coleção de ruínas (Edições Macondo, 2014).


Edição de novembro do Eco Performances Poéticas
Dia 14/11/2014, sexta-feira, a partir das 19 horas.
No Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro, JF)
Entrada franca

Evento no Facebook: http://on.fb.me/1xmCI7E

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Edição de novembro: poetas convidados (parte 2)

Também no elenco da edição de novembro do Eco: Prisca Agustoni. 




sou cinderela que quebra
o pacto mas quando quer voltar
enfim descalça
o cetro encantado cega
e entrelaça as sendas, assim
eu paro  perdida  abro os olhos                                
no meio do caminho da vida      

de: Casa dos ossos (em edição, para 2015)


Sobre a autora: Prisca Agustoni nasceu na Suíça, onde agora só passa longas férias cruzando de trem  as fronteiras geográficas e linguísticas da pátria helvética: escreve poesia e prosa em italiano, português e francês. Mora no Brasil, em Juiz de Fora, desde 2003, onde trabalha como professora na Universidade Federal de Juiz de Fora, além de cuidar das muitas mudas de flores que plantou no quintal de casa.Publicou várias coletâneas de poesia tanto no Brasil quando na Suíça,  e estão no prelo, para começos de 2015, Casa dos ossos (Juiz de Fora, Sans Chapeau) e Un ciel provisoire (Genebra, Samizdat).


Edição de novembro do Eco Performances Poéticas
Dia 14/11/2014, sexta-feira, a partir das 19 horas.
No Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro, JF)
Entrada franca

Evento no Facebook: http://on.fb.me/1xmCI7E

Edição de novembro: poetas convidados (parte 1)

Abrindo o elenco de convidados da edição de novembro do Eco: Daniel Valentim Mansur.






Sobre o autor: Daniel Valentim Mansur nasceu em 1977 em Belo Horizonte. Em Manaus, para onde se mudou aos sete anos, trabalhou como repórter de polícia e, mais tarde, de cultura, até concluir o curso de Jornalismo e desistir da profissão. Mestre em letras pela UFJF, lançou o livro de contos Manual prático das ocupações perdidas (2011), pela Bartlebee. Da cor que faz é seu primeiro livro de poemas e será lançado ainda este mês pela TextoTerritório.



Edição de novembro do Eco Performances Poéticas
Dia 14/11/2014, sexta-feira, a partir das 19 horas.
No Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro, JF)
Entrada franca

Evento no Facebook: http://on.fb.me/1xmCI7E

domingo, 9 de novembro de 2014

Edição de novembro do Eco!



2014 está passando rápido demais... a gente distrai um pouquinho e quando vê já está na hora de mais uma edição do Eco! E no dia 14 de novembro, o Museu de Arte Murilo Mendes vai sediar mais uma vez a nossa tradicional noite poética, com uma programação cheia de lançamentos e novidades.

Para começar, a poeta carioca radicada em São Paulo Marília Garcia aporta pela primeira vez em terras juiz-foranas. Ela, que é autora de 20 poemas para seu walkman (Cosac Naify, 2007) e Engano geográfico (7letras, 2012), vem acompanhada dos poemas de seu livro mais recente, Um teste de resistores (7letras, 2014). 

Frederico Spada Silva, autor de Arqueologias do olhar (FUNALFA, 2011) e conhecido participante de edições anteriores do Eco, retorna ao microfone para dessa vez lançar seu Coleção de ruínas (Edições Macondo, 2014). 

A carta na manga de Laura Assis é a pré-estreia de seu primeiro livro, Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014), que será oficialmente lançado na segunda quinzena de novembro, com ou sem a participação de Dom Sebastião. 

Natural de Belo Horizonte, Daniel Valentim Mansur é autor do livro de contos Manual prático das ocupações perdidas (Bartlebee, 2011) e está fazendo sua primeira incursão na poesia com Da cor que faz (TextoTerritório, 2014). 

E o elenco ainda conta com a presença de Prisca Agustoni, a poeta suiça mais juiz-forana de que se tem notícia, que participa mais uma vez do Eco, mostrando um pouco de sua produção poética atual.

A trilha fica por conta das viagens sonoras de Caio Montesano Goulart e ainda vai rolar o clássico microfone aberto e a banquinha de livros.

A entrada, claro, é grátis!


Edição de novembro do Eco Performances Poéticas
Dia 14/11/2014, sexta-feira, a partir das 19 horas.
No Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro, JF)
Entrada franca

Evento no Facebook: http://on.fb.me/1xmCI7E

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Eco de Julho: poesia entre amigos

Texto: Anelise Freitas
Fotos: Edson Rodiguez


Falar das edições do Eco para o blogue do Eco parece tendencioso, assim como falar de um Eco entre amigos. Parece  difícil falar de uma edição com Felipe Rezende, Bruna Werneck, Lucas Viriato, Augusto Guimaraens e André Capilé, todos os irmãozinhos.




Vindo especialmente de Brasília, cidade onde reside, o poeta juiz-forano Felipe Rezende começou a edição eletricamente, lendo poemas inéditos e também de seu livro A calma pressa. A também mineira, natural de Leopoldina, Bruna Werneck, destrinchou os versos de seu blogue, Infinitopia. Logo em seguida, lançando a antologia poética do Jornal Plástico Bolha, os cariocas Lucas Viriato, organizador da publicação, com selo da Organograma e Augusto Guimaraens (o surrealismo e Campos de Carvalho). Para encerrar a lista de poetas convidados, André Capilé, nosso irmão-maior e um dos pais do Eco Performances Poéticas.





A festa ganhou continuidade na sede das Edições Macondo, rizoma editorial da Um Conto, levando os poetas, os organizadores do evento e alguns espectadores para uma continuação poética que se estendeu até o dia quase amanhecer. O poeta (e DJ da edição) Otávio Campos recebeu todos os poetas em sua casa, onde todos puderam falar de poesia e sobre o golpe.

Depois dessa edição que abriu a temporada 2014 do Eco no Museu de Arte Murilo Mendes o golpe ainda não veio mas, dizem alguns, virá!








quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Edição de outubro: convidados (parte 4)

Fechando o elenco de convidados do Eco de outubro: Otávio Campos.






o dia dos teus anos

começo hoje a festejar o dia dos teus anos
dona filomena me aponta por chegar sempre tarde à casa
minha mãe fala devagar o meu nome
dona filomena me aponta por chegar sempre triste 
e subir as escadas como se derrubasse o mundo
minha mãe fala baixo o meu nome
eu peço: mais alto, por favor
é que dona filomena às vezes grita no apartamento do lado
se eu fosse um náufrago
e teu nome uma concha
escutaria o que os vizinhos já conhecem
é que dona filomena nunca pisou nesse prédio
minha mãe esquece meu nome quando desligo o telemóvel
carlos, desculpe-me
há dias que sou eu mesmo
em outros sou dona filomena
e também minha mãe
e também o tavares quando não abre a tabacaria
quando eu era um náufrago
e teu nome uma ilha
as coisas não costumavam mudar de forma
pois era eu mesmo
e eu mesmo
e às vezes você (eu mesmo)
mas logo hoje festejo o dia dos teus anos
e celebro o apartamento como uma instituição
pois teu nome e dona filomena e a tabacaria
e todas as coisas bonitas e tristes da cidade são o mesmo 
maço de papéis quando: uso óculos escuros
lavo as mãos na água fria
sento de costas e deito a cabeça na janela do metro
mas logo hoje (o dia dos teus anos) sou dona filomena
e também a paragem do autocarro e também algumas prendas
e sobretudo eu mesmo e a alegria do mundo
logo hoje
a casa respira tempos que não são teus


Sobre o autor: Otávio Campos cursa Letras na Universidade Federal de Juiz de Fora. É editor da Um conto - Revista de Literatura e autor de Distância (Aquela Editora, 2013). Atualmente faz parte da organização do Eco Performances Poéticas

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Edição de outubro: convidados (parte 3)

Também no elenco da edição de setembro do Eco: Júlia de Carvalho Hansen.




Temes a noite onde os nomes... 

Temes a noite onde os nomes não se registram nos radares
e as palavras como joelhos afastados pela mão de outro
são caixas-pretas boiando no mais marinho dos oceanos.

Um avião cruza os ares em direção a um batizado.
É o seu eco que cola as sílabas umas as outras
rejuntes de significado, amálgamas do esquecimento.

Se só pensas em assentar as mais corretas, maneiras
de permanecer, feito cal, espalhado pelas espáduas
trêmulo cimentado teu coração, um canteiro de plantio
para as alfaces – soníferas e insípidas – do cotidiano.
De ti, só poderei aceitar atrelar-me, como um mexilhão.

Agora sou na tua rocha. E de mim se aproxima outro,
que os passageiros não alcançarão. Age antes de querer
com todos os olhos de quem nunca tinha tocado bivalves
sem enciclopédia ou Discovery Channel
feito um miúdo se maravilha, ama as pérolas,
sabe bem mastigá-las com os dentes até parti-las.

Como eu, um dia, também contigo, tentei.


Sobre a autora: Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, em 1984. É autora dos livros cantos de estima (Selo de estimas e grama, SP, 2009), alforria blues ou Poemas do Destino do Mar (Chão da Feira, BH, 2013) e O túnel e o acordeom - diário fóssil encontrado após a explosão (Não edições, Lisboa, 2013). Integra o coletivo editorial Chão da Feira e é mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa.

Edição de outubro: convidados (parte 2)

Mais um dos convidados da edição de outubro do Eco: Bartok!



Confira "Será, talvez...", música de autoria do Bartok:


 

Sobre os convidadosBartok é um duo de coração compondo músicas com influências da MPB mineira. Além de Eduardo Martins, Aline Coutinho assina todos os outros instrumentos da banda. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Edição de outubro: convidados (parte 1)

Abrindo o elenco de convidados da edição de outubro do Eco: Carolina Barreto.




Cascalho

unhas raspam a
  cera do verso

redemoinho experto:

fazer do si o
         circunspecto

                 da
.           parábola
.            expecto



Sobre a autora: Carolina Barreto é mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora, tendo se graduado em Letras nessa mesma instituição. Atualmente, é doutoranda em Estudos Literários do PPG - Letras da UFJF. É autora de Voragens (FUNALFA, 2012) e co-autora, junto com André de Freitas Sobrinho, de Dois (não Pares) (FUNALFA/Anome Livros, 2009). Participou da antologia de poemas Portuguesia: contraantologia (Anome livros, 2009), organizada por Wilmar Silva, e da antologia de contos Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai (Edições Pasárgada, 2010), organizada por Ozias Filho. Carolina ministrou oficinas de criação literária no projeto “Ave, Palavra”, realizado em 2012 na livraria A Terceira Margem. Também participou elaborando, organizando e ministrando oficinas deleitura no projeto “Sagrado Quilombo – Coração dos Palmares: leituras e leitores”, financiado pela FAPEB. Em 2013, ministrou a oficina “Leitura e criação: o trabalho poético em Affonso Romano de Sant’Anna” no projeto SESC – Literatura. Neste ano, 2014, participou desse mesmo projeto com a oficina “O cotidiano na palavra: a construção do imaginário nas crônicas de Martha Medeiros”.


Edição de outubro do Eco Performances Poéticas
dia 10 de outubro, sexta-feira, a partir das 19h
no Museu de Arte Murilo Mendes 
(Rua Benjamin Constant, 790, Centro. Juiz de Fora, MG)
Entrada Franca!



Evento no Facebook: http://on.fb.me/1CQiiGq

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Edição de outubro do Eco!



No dia 10 de outubro, a partir das 19h, o Museu de Arte Murilo Mendes recebe mais uma edição do Eco Performances Poéticas.


Abrindo o elenco de convidados, a poeta paulista Júlia de Carvalho Hansen, integrante do coletivo editorial Chão da Feira e autora dos livros cantos de estima (Selo de estimas e grama, SP, 2009), alforria blues ou Poemas do Destino do Mar (Chão da Feira, BH, 2013) e O túnel e o acordeom - diário fóssil encontrado após a explosão (Não edições, Lisboa, 2013). 



A juiz-forana Carolina Barreto, uma das primeiras poetas a participar do Eco, ainda no ano da criação do evento, e autora de Dois (não pares) (FUNALFA, 2008) e Voragens (FUNALFA, 2012), retorna para mais uma vez ler algumas de suas poesias e mostrar sua produção atual.

Membro da equipe de organização do Eco, Otávio Campos também é um dos poetas do elenco. O autor de Distância (Aquela Editora, 2013) e editor da Um Conto - Revista de Literatura estará lançando seu Amanhã tomo um vôo a Budapeste (Edições Macondo, 2014).

Para fechar o elenco de convidados, o duo Bartok, formado por Eduardo Martins e Aline Coutinho, se apresentará ao vivo, levando ao Eco suas composições influenciadas pela MPB mineira. 

A noite também vai contar com o obrigatório Microfone Aberto, trilha sonora e banquinha de livros com o melhor da poesia contemporânea. E a entrada, claro, é grátis!


Edição de outubro do Eco Performances Poéticas
dia 10 de outubro, sexta-feira, a partir das 19h
no Museu de Arte Murilo Mendes 
(Rua Benjamin Constant, 790, Centro. Juiz de Fora, MG)
Entrada Franca!


Evento no Facebook: http://on.fb.me/1CQiiGq


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Eco no Condomínio Miguel Marinho

por Luiz Fernando Priamo


Disse Drumond, “(...) As palavras não nascem amarradas, / elas saltam, se beijam, se dissolvem, / no céu livre por vezes um desenho, / são puras, largas, autênticas, indevassáveis (...)”. De fato o é. E se faz urgente levar por aí a poesia.

Pensado para retirar a poesia da gaveta, o Eco há seis anos faz seu papel nisso tudo. E cumprindo mais uma missão, levou a sua proposta ao condomínio Miguel Marinho, na zona norte de Juiz de Fora. Para o elenco se prontificaram Anelise Freitas, Anderson Pires e Otávio Campos, todos já do elenco fixo. Como convidados, o MC Oldi e o poeta Giovani Verazzani deram as caras com um papo reto em ponto de tiro certeiro. O ritmo do baile foi conduzido pelo maestro de longa data do Eco, Pedro Paiva. 

A manhã do sábado, 28 de junho, era cinzenta, mas não afastou as pessoas do local e o evento impulsionado pela EMCASA em parceria com a Funalfa. Muitas crianças cruzando o local, pula-pula em ritmo de Racionais MC’s, tudo lindo. Um set objetivo, cruzando poemas dos poetas presentes, arrancou aplausos e atiçou a curiosidade de quem passou por lá.

Sempre muito legal passar em locais nos quais a poesia ainda tem a liberdade de passear de boca em boca, muro em muro. E mais que isso, dissolver palavras no espaço em suas essências, nem que seja para subvertê-las. Aos descrentes, juntem se a nós na próxima!


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Jogar o jogo — ou sobre traduzir: entrevista com Paulo Henriques Britto

por André Luiz de Freitas Dias


Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro em 1951.  Poeta, contista, ensaísta, professor e um dos principais tradutores brasileiros da língua inglesa, formou-se em português e inglês pela PUC-Rio. É professor de tradução, criação literária e literatura brasileira na PUC-Rio, onde também defendeu mestrado em língua portuguesa. Em 2002, recebeu o título de Notório Saber na mesma instituição. Morou nos Estados Unidos em dois períodos, no começo dos anos 1960, ainda menino, e no começo dos anos 1970, quando estudou cinema em San Francisco. Como poeta, estreou em 1982, com Liturgia da matéria. Depois, vieram os volumes de poesia Mínima lírica (1989), Trovar claro (Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Fundação Biblioteca Nacional, 1997), Macau (Prêmio Portugal Telecom, 2004), Tarde (2007) e Formas do Nada (2012). Publicou também os contos de Paraísos artificiais (2004) e Eu quero é botar meu bloco na rua (2009), sobre a música de Sérgio Sampaio. Ainda em 2012, publicou o livro A tradução literária. Já traduziu cerca de cem livros, entre eles volumes de poesia de Byron, Elizabeth Bishop e Wallace Stevens, e romances de William Faulkner (O som e a fúria). Recebeu o Prêmio Paulo Rónai da Fundação Biblioteca Nacional (1995) pela tradução de A mecânica das águas (Companhia das Letras), de E. L. Doctorow.

*

......A primeira vez que vi você fora do livro, foi em uma aula inaugural na UFJF. Ali, de muitos modos, já mostrava um circuito de opiniões muito diversas sobre tradução e poesia; também um modo de enxergar as funções dessas matérias, tanto na prática escrita [criativa, tradutória] quanto na posição de professor. Nessa aula inaugural, você dizia ter começado a traduzir, do português para o inglês, poemas de Fernando Pessoa e as letras dos músicos Tropicalistas, especialmente Caetano, para mostrar aos amigos nos Estados Unidos. Poderia falar um pouco mais desse período e, ao voltar para o Brasil, como se deu sua entrada profissional no campo da tradução?

......Fui para a Califórnia com o objetivo oficial de estudar cinema, mas, na verdade, era mais um pretexto para ir embora do Brasil, num momento — 1972 — em que vivíamos um clima irrespirável, pós-AI5; no fundo eu pensava em me radicar nos Estados Unidos, imaginando que, por falar inglês desde a infância e ter conhecimento prévio da cultura norteamericana, eu me aclimataria sem problemas. Nada ocorreu como o previsto; ainda que eu frequentasse círculos contraculturais semelhantes aos que conhecia no Rio, e fizesse algumas amizades sólidas, eu me sentia um peixe fora d’água, tinha saudades do Rio, da língua portuguesa, da família, dos amigos, de tudo. E embora eu estudasse cinema, meu interesse cada vez mais se concentrava na literatura e na linguística. Assim, depois de seis meses de Los Angeles e um ano de San Francisco, o banzo me trouxe de volta ao Brasil. Aprendi alguma coisa de cinema, sem dúvida; o mais importante, porém, foi que atualizei meu inglês, descobri a gramática gerativa — voltei para o Rio decidido a me tornar linguista —, travei contato com a obra de vários escritores, inclusive um poeta que veio a se tornar importante para a minha formação, Wallace Stevens, e também adquiri alguma prática na tradução literária — e não só por traduzir poemas e letras de canções do Brasil para mostrar aos amigos americanos. Como eu pretendia ficar nos Estados Unidos, comecei a escrever um livro de contos em inglês, e, com a volta ao Brasil, tive que traduzir o que já havia escrito para o português.
......Quando voltei para o Rio em caráter definitivo, em meados de 1973, comecei a lecionar inglês no IBEU, e para aumentar a renda comecei a fazer traduções. Na verdade, meus primeiros trabalhos foram de revisor, na editora Imago; e comecei a fazer traduções comerciais, tanto do inglês para o português, quanto vice-versa. Minha primeira tradução literária, alguns anos depois, foi para a Nova Fronteira: Voss, romance do australiano Patrick White, que conquistou o Nobel de literatura de1973. Minha insegurança era total. Não sabia que forma de tratamento adotar: o romance era passado no século XIX, e eu não sabia se usava “tu” ou “você”; não sabia quando usar “o senhor”. Não tinha a menor experiência, não tinha ninguém que pudesse consultar — não conhecia nenhum tradutor literário. Por não ter bons dicionários, eu não saía da biblioteca do IBEU; como não sabia nada sobre a Austrália, passei uma tarde inteira lá lendo o imenso verbete referente à Austrália da Enciclopédia Britânica, tomando notas. Foi assim que aprendi a traduzir literatura: na marra. Entreguei a tradução para a editora, o tempo foi passando e acabei me esquecendo dela. Quase dez anos depois é que o livro foi publicado — não me pergunte por quê. A essa altura, eu já estava trabalhando para outras editoras.

......Há mudanças significativas, em termos de profissionalização [de editores e editorial de tradutores], de quando você começou, para o quadro atual? Quais seriam? O aprimoramento teórico da prática tradutória, oferecido pelos cursos universitários, tem peso nessa mudança? 

......Muita coisa aconteceu de meados dos anos 70 para cá, no Brasil e no mundo, no campo da tradução. A Associação Brasileira de Tradutores foi fundada em 1973 — eu estava presente à sessão de fundação, quietinho num canto, enquanto falavam Aurélio Buarque de Holanda, Paulo Rónai e outros nomes importantes que até então eu só conhecia dos livros; da ABRATES nasceu depois o Sindicato dos Tradutores; e, no final dos anos 80, finalmente a profissão de tradutor foi legalmente reconhecida. Os cursos universitários — do qual o mais antigo é o da PUC-Rio, fundado ainda no final dos anos 60 — também foram relevantes, lançando no mercado profissionais que já tinham tido algum embasamento teórico e, mais importante ainda, muita prática tradutória. Mas talvez o mais significativo de tudo seja a mudança de atitude das editoras, que até então davam muito pouco valor ao papel do tradutor. Aos poucos os editores foram se dando conta de que uma má tradução pode matar um livro, que pagar mais para um bom tradutor e um bom revisor resultava num produto final que permaneceria no mercado por muito mais tempo, tendo reedições sucessivas. Enquanto isso, o campo dos estudos da tradução surgiu e cresceu de modo extraordinário nas últimas décadas do século passado. E, é claro, o advento dos microcomputadores e da internet facilitaram imensamente o trabalho de tradução, permitindo mais rapidez e melhor acabamento.

......No campo da tradução, algumas das suas posições teóricas são bastante conhecidas. Culminaram, recentemente, na publicação do livro A tradução literária. Nesse livro você abre algumas frentes que, a meu ver, são bastante interessantes. A revisão, necessária, de certa perspectiva do senso comum sobre o trabalho do tradutor; a relativização de determinados posicionamentos teóricos, principalmente da corrente da desconstrução; da necessidade de avaliação qualitativa das traduções — já indicada, anteriormente, em um ensaio seu sobre as traduções de Donne, realizadas por Paulo Vizioli e Augusto de Campos. Poderia nos falar um pouco mais sobre essas ideias e, naturalmente, como elas são atuadas em sala de aula? Como esse pensamento tem repercutido, uma vez que você, ao que parece, não se incomoda muito de manter uma posição mais conservadora em relação à teorização desconstrucionista, por exemplo?

......A desconstrução se tornou muito influente no Brasil, principalmente nos anos 90, e independentemente do que possa ser dito a seu favor ou contra, no âmbito da filosofia e dos estudos literários, na área de tradução ela foi responsável pela instauração de um divórcio entre a atividade prática da tradução e os estudos teóricos. Levados às últimas consequências, os princípios da desconstrução tornam insustentáveis todos os conceitos que proporcionam os alicerces da empresa tradutória: original, correspondência, fidelidade, transparência, etc. Por mais que concordemos com muito do que é afirmado por esses teóricos, como sua defesa de uma visão antiessencialista da linguagem, as conclusões tiradas por eles vão de encontro às práticas da tradução como “forma de vida”, para usar um conceito de Wittgenstein (um autor, aliás, cuja visão da linguagem, também antiessencialista, me parece bem mais útil para fundamentar o trabalho de tradução). Ora, sei perfeitamente que o significado de um texto não é uma entidade estável, a respeito da qual possa haver um consenso absoluto; que tradução alguma pode reproduzir com exatidão o significado de um texto — e, no caso do texto literário, os seus efeitos de forma —; que não há uma única tradução correta de um dado texto. Mas, para quem tem a obrigação profissional de traduzir um determinado texto, é necessário partir dos pressupostos de que há um determinado significado — e determinados efeitos de forma — que são cruciais para um dado texto; que é possível reproduzir no idioma-meta essas propriedades do texto original com um grau razoável de precisão; e que, dadas duas traduções de um texto, é possível afirmar-se, com base em argumentos razoáveis, fundados em propriedades do original e da tradução, que uma é melhor ou pior que a outra, ou de qualidade comparável a ela. São essas as regras que vigoram nesta forma de vida que é a tradução; sabemos que são apenas regras, mas sem elas não se joga o jogo de traduzir.
......Vou dar um exemplo, que creio ter incluído no livro: imagine-se que, no meio de uma partida de futebol, um jogador segura a bola com as mãos e corre com ela em direção ao gol do time adversário. O árbitro então saca o cartão vermelho, é claro. O jogador, que é seguidor de Derrida, resolve argumentar que as regras do futebol não são verdades transcendentais, criadas por Deus e inscritas nas realidades da bola e do campo; que elas não refletem nenhuma essência eterna, ou seja, podem mudar e mudam de fato, quando a FIFA decide que uma mudança é necessária; que os juízos do árbitro não exprimem verdades absolutas. O árbitro, se for um bom leitor de Wittgenstein, responderá: “Tudo que você afirma é verdade; mas as regras do futebol em vigor proíbem qualquer contato entre as mãos e a bola. Se você pega a bola com a mão no meio do jogo e não é goleiro, não está mais jogando futebol.” Como você vê, minha rejeição das posições desconstrucionistas não se deve a algum conservadorismo da minha parte. Quem traduz se orientando pelos princípios da desconstrução, acreditando que não tem acesso ao sentido do original, o qual é totalmente instável; que o texto que está produzindo não pode corresponder ao sentido do original, e, portanto, pode dele afastar-se o quanto quiser; e que o produto de seu trabalho não é melhor nem pior do que qualquer outro texto que seja produzido por alguém a partir do mesmo original, já que todos os juízos humanos são relativos e falhos — quem age assim não está mais traduzindo, e sim fazendo outra coisa qualquer, que pode até ser interessante, mas — pelos critérios atualmente adotados pela grande maioria das pessoas — tradução não é.

......Se tomarmos a famosa colocação de Harold Bloom acerca da influência, os irmãos Campos te geraram algum tipo de angústia no ato de traduzir? Você costuma dizer que as categorias criadas por eles, como “transcriação”, “transluciferação” etc.; não passam de nomes pomposos para “traduções muito bem feitas” que, na verdade, guardam mais aproximações com os originais do que com a invenção. Como você viu, na época, a discussão entre Bruno Tolentino e Augusto de Campos, acerca da tradução de Hart Crane? Você vê, de algum modo, a necessidade de reavaliar as posições, ainda hegemônicas, do pensamento dos Campos para a tradução?

......O pensamento de Haroldo de Campos, por mais fascinante e influente que seja, na minha opinião, põe ênfase excessiva na autonomização do texto traduzido em relação ao texto original. Ele chega a afirmar que em última análise o tradutor literário quer usurpar o lugar do original. Ora, não vejo como tal coisa poderia se dar. Por melhor que seja a tradução de Homero feita por Haroldo, ela só terá real valor para os leitores lusófonos — e, talvez, também para tradutores de outros idiomas, na medida em que as soluções encontradas por ele podem lhes apontar caminhos interessantes. O fato é que, para a parcela da humanidade que não fala português, o ponto de partida será sempre o conjunto de textos gregos recolhidos sob o nome de Homero; nenhuma tradução pode usurpar tal lugar. O máximo que o tradutor pode pretender realizar é a recriação, na língua-meta, daqueles elementos de sentido e de forma do original que, de acordo com a sua leitura, são os mais importantes, dentre os que podem ser recriados na língua-meta em questão. Querer mais que isso é hybris. Mas a prática tradutória de Haroldo e de Augusto de Campos, felizmente, não vai nesse caminho. Pelo menos com base no que posso avaliar — as traduções que eles fizeram do inglês ou de línguas que leio, com mais ou menos desenvoltura, como o italiano e o francês — o trabalho deles é quase sempre muito respeitoso com o original, tanto no plano do significado quanto no do significante. Quanto à angústia de que fala Bloom, jamais me ocorreu que minhas traduções pudessem ser comparáveis em qualidade, para dar só um exemplo, ao Hopkins de Augusto; para mim, eles são mestres que devem ser emulados, e que — para mim, ao menos — permanecem insuperáveis.
......A controvérsia entre Bruno Tolentino e Augusto de Campos, como todas as controvérsias provocadas por Tolentino, não é coisa que possa ser discutida com seriedade. Ele tinha o gosto por polêmicas, nas quais fazia afirmações muitas vezes estapafúrdias — como a de que Augusto de Campos não conhecia bem o inglês — afirmações essas que, em mais de uma ocasião, contradiziam o que ele havia afirmado pouco antes. Como tradutor, Tolentino está muito aquém do nível de Augusto. Seu comportamento errático e agressivo, associado às posições arquiconservadoras que defendia, acabaram tendo um efeito negativo sobre o reconhecimento de sua obra poética, o que é uma pena. Sua última produção, A imitação do amanhecer, merecia ser mais lida e comentada; a meu ver é um excelente livro.

......Um dos enfoques da sua produção ensaística dá ênfase a uma leitura mais formalista do texto poético. Como exemplos, podemos observar sua leitura sobre o desvio do pentâmetro inglês e o decassílabo português na tradução de poemas; também, mais recentemente, a busca de uma tipologia para o verso livre no Brasil, tomando como partida algumas traduções conhecidas de um mesmo poema de T.S. Eliot [“A Love Song of Alfred J. Prufrock”]. Embora a partida dos textos esteja vinculada à tradução, são bastante interessantes para pensar a dinâmica do verso de maneira mais geral. Como observa essa afirmação? Poderia nos falar um pouco mais sobre a direção dessas pesquisas?

......Sim, estou interessado na questão do verso tal como tem sido utilizado no Brasil, principalmente a partir do modernismo. Um curso recente que dei na PUC-Rio foi justamente sobre isso — a história do verso do modernismo até agora; dei uma versão compacta desse curso, indo só até as neovanguardas dos anos 1950-60, na UFPE, há duas semanas. Nesse primeiro momento, estou enfatizando o chamado verso livre, que, na verdade, é toda uma constelação de formas, e o decassílabo, mas a ideia é ir expandindo, pegando mais poetas e mais formas. Creio que peguei a ideia com Saintsbury, que escreveu um tratado longuíssimo — três volumes alentados — sobre a história do verso inglês, desde os primórdios até a época dele (logo antes da eclosão do modernismo). Acabei de ler o livro recentemente, e estou tentando não cair nos erros de Saintsbury: trabalhar com termos não definidos (ele jamais define “pé”, por exemplo) e valer-se do achismo, fazer afirmativas categóricas sem dar nenhum lastro empírico a elas.

......É notável seu interesse sobre a poesia contemporânea no Brasil. São exemplares os cursos que privilegiam a leitura de poetas não muito conhecidos, como Edimilson de Almeida Pereira ou Rubens Rodrigues Torres Filho; uma extensa leitura da poética de Claudia Roquette-Pinto, para a coleção Ciranda da Poesia; orelhas ou apresentações de livros, como, por exemplo, Lucas Viriato, Marcello Sorrentino, Mariano Marovatto e Iacyr Anderson de Freitas. Qual balanço pode ser feito, se balanço há, sobre a poesia brasileira contemporânea?

......Ainda falta estudar muita coisa, mas já dá para tirar algumas conclusões. A primeira é que, ao contrário do que certos críticos afirmam, estamos vivendo um bom momento na poesia brasileira (para não falar na portuguesa, que também está em ótima fase); há muitos poetas excelentes em atividade. A segunda é uma obviedade: não há mais tendências bem definidas, e nada que possa ser rotulado de “movimento”. Se há experimentação, trata-se principalmente de retrabalhar ou avançar nas conquistas formais do modernismo — ou seja, dialoga-se mais com as vanguardas do início do século do que com as neovanguardas, embora estas também tenham tido um impacto importante, principalmente o concretismo. A terceira é que, embora haja uma pluralidade de versos, a forma mais popular hoje em dia é o que venho chamando, por falta de nome melhor, de novo verso livre: um verso curto, fortemente enjambado, que nas mãos dos melhores poetas é usado para estabelecer um contraponto entre o verso sonoro (que muitas vezes ignora a fronteira entre os versos gráficos) e o verso gráfico (que muitas vezes não tem autonomia sonora).

......Há um poema seu, no Formas do Nada, chamado “Pós” que ensaia, a meu ver, uma resposta — ou início de discussão — com as vanguardas e certo posicionamento sobre a produção poética hoje, além da aberta citação ao “Pós-Tudo” de Augusto de Campos. O terceiro poema, da série “Oficina”, salvo engano, brinca com a função da música do poema em João Cabral de Melo Neto — um soneto mobilizado por terça-rima e fechado em um dístico com uma potente paronomásia. Ricardo Domeneck, já há algum tempo, escreveu sobre certa inconsistência em usar formas históricas do poema, como o soneto. Toma, inclusive, uma famosa série de sonetos seus [“até segunda ordem”], como exemplo, elogioso, do bom uso da forma. Como vê essa afirmação? Qual sua relação com a tradição e a produção poética recente na sua poesia?

......Ao contrário de Ricardo Domeneck, não acredito que o uso do soneto implique uma determinada visão do mundo, fatalmente ultrapassada. Não creio que só o novo verso livre corresponda ao nosso tempo, como nunca acreditei que o uso do sistema harmônico de Bach-Rameau remetesse necessariamente ao passado e todo compositor tivesse que utilizar o método serial, como era moda dizer até mais ou menos a década de 1970. Como diz Antonio Cicero, as vanguardas pensam que estão demolindo formas antigas, mas o que acabam fazendo é revitalizálas e criar novas formas, aumentando o repertório. Stravinsky criou uma forma nova na Sacré du printemps e revitalizou a harmonia tradicional em Pulcinella; Bandeira foi um dos criadores do verso livre entre nós, mas soube também retrabalhar de modo magnífico o octossílabo em “Boi morto”, entre tantas outras formas. É interessante observar que a suposta obsolescência das formas, e mesmo do verso, é uma ideia que nunca foi levada muito a sério pelos poetas de língua inglesa. Stevens, Frost, Eliot, Pound, Yeats e Auden — para citar apenas os seis maiores poetas modernos do idioma — todos trabalharam com formas tradicionais. 
......Se formos estender a lógica de Domeneck — segundo a qual o soneto, por exemplo, está fatalmente ligado à concepção de mundo da época em que surgiu — onde vamos parar? O verso tout court não estaria ligado ao passado, como diziam os concretistas nos anos 50 e 60? Haroldo de Campos pelo visto já não acreditava mais nisso quando publicou um longo poema em terça-rima na última fase de sua carreira. A língua portuguesa não estaria comprometida irremediavelmente com o passado distante, o tempo de sua formação, fazendo-se necessário que criássemos uma “língua brasileira”? Mario de Andrade e outros chegaram perto de afirmar tal coisa nos anos 20, mas depois voltaram atrás. Ou muito me engano ou Domeneck, nas próximas décadas, vai descrever um percurso semelhante... A meu ver, não há como um artista não dialogar com a tradição — repeti-la servilmente e romper com ela de modo radical são duas maneiras extremas de fazê-lo, e nenhuma das duas me atrai. Meu método predileto é tomar formas tradicionais e tensioná-las — no soneto, por exemplo, usando decassílabos com uma pauta acentual incomum e colocando forma e sentido em contraste, como Domeneck observou com sua costumeira argúcia na sua análise do meu poema; ou então alterar a forma, interferindo nas regras do soneto, criando sonetoides e sonetetos. Mas onde não pode haver volta atrás, do meu ponto de vista, é na linguagem: o idioma do poema não pode ser marcado por um vocabulário precioso e uma sintaxe arrevesada. A conquista do coloquial, operada por Bandeira e os modernistas, me parece definitiva.

......Paulo, pra fechar a tampa, os livros sobre versificação no Brasil não são muito numerosos e, em sua maioria, não tratam do verso livre – ao menos, não de modo satisfatório. Podemos esperar uma publicação, nos mesmos termos de A tradução literária? 

......Gostaria muito de reelaborar meus artigos esparsos, acrescentar alguma coisa — talvez muita coisa — e fazer um livro, sim.




Entrevista originalmente publicada na revista Texto Poético, Vol. 14.