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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Edição de abril: poetas convidados (parte 4)

Fechando o elenco de poetas convidados do Eco de abril: André Capilé.



A canção de amor de J. Pinto Sayão (excerto)

Então vamos, você e eu,
Quando o fim da tarde é espalhado contra o céu 
Como um paciente eterizado sobre a mesa;
Vamos, por certas ruas meio ermas,
Resmungando da noite o refúgio
no pernoite inquieto em hotéis vagabundos; 
E as ostras com serragem nos botecos: 
Ruas que seguem como uma discussão tediosa 
Cuja intenção insidiosa
É conduzir você à questão crucial . . .

“Qual é?” Ah, não me inquira
Vamos logo fazer nossa visita. 

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

A bruma ocre que esfrega o dorso em volta das vidraças, 
O fumo ocre que esfrega o focinho nas vidraças
Lambeu os beiços nas esquinas do crepúsculo,
Pôs-se na poça a chafurdar o charco,
Deixou cair nas costas a fuligem que vem das chaminés,
Deslizou pela laje, deu um salto súbito,
E vendo que era uma branda noite de outubro,
Por inteiro enrolou-se em volta da casa, e dormiu.

E muito certamente haverá tempo
Pra que flua pela rua a parda fumaça
Esfregando o dorso pelas vidraças;
E sim, haverá tempo, haverá tempo
De preparar um rosto que outro rosto encare;
Haverá tempo para matar e criar,
Tempo de mãos, para os trabalhos e os dias, 
Que erguem e lançam questões no seu prato;
Tempo para você, tempo pra mim,
E tempo ainda de mil e uma indecisões,
Também de inúmeras visões e revisões,
Antes da hora de torradas com chazinho.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.


Sobre o autor: André Capilé nasceu na margem mansa do Sul Fluminense em 1978. Cofundador e ex-organizador do Eco Performances Poéticas, também é parceiro de ações do site TextoTerritório e do coletivo editorial Edições Macondo. Publicou, entre outros, rapace (Texto Território, 2012) e balaio (7Letras, 2014). Mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, onde cursa, atualmente, doutorado.


*

Edição de abril do Eco Performances Poéticas
10 de abril, sexta-feira, a partir das 19h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro. JF-MG)
Entrada franca

Evento no Facebook: http://on.fb.me/1F6BTq0





quarta-feira, 8 de abril de 2015

Edição de abril: poetas convidados (parte 3)

Outra poeta que vai fazer parte do elenco de convidados da edição de abril do Eco: Marcela Batista.



Corpo a corpo

ser estrangeiro 
no português 
fatia o plural
com laminados estáticos
que lá de fora atravessa pra dentro
é ser a encarnação do pecado da língua 
do bafo 
do ácido paladar 
que envolve aquelas noites e 
folheia aqueles dias
a teia dessa língua indigesta
emaranha umas consoantes 
às singulares vogais
estranhamente ditas
mal encaradas
piamente repetidas
som a som
língua a língua 
L A M B E N D O
o céu da boca 
ardilosa como
este solo 
chamado Alentejo.


Sobre a autora: Marcela Batista é poeta e aluna do curso de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Em 2014 morou em Portugal, onde escreveu seu primeiro conjunto de poemas no ócio poético d'além mar.

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Edição de abril do Eco Performances Poéticas
10 de abril, sexta-feira, a partir das 19h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro. JF-MG)
Entrada franca

Evento no Facebook: http://on.fb.me/1F6BTq0

terça-feira, 7 de abril de 2015

Edição de abril: poetas convidados (parte 2)

Também no elenco da edição de abril do Eco: Ana Lidia Resende Paula.




E agora? Dei tanto valor a margens que o rio secou. Achei que sorrir era um fato que o choro passou. Pensei que o sol era farto que a chuva caiu. Imaginei que o espaço era exato que a voz não saiu. Sem dias sem meses sem datas odeio as exatas impostas pela sociedade Estou farta! Não sei o valor exato do quadrilátero nem a raiz de 5 É exata? Sei do amor da palavra do humano da estrada. Sei do desânimo do sorriso animado do caminho certo Sei do passado, que passou tão rápido Do futuro, que nem veio Do instante, mas... Qual é a medida exata da reta larga que marca o presente? Calma aí. O presente passou assim tão rápido?! "E agora José?" A tinta manchou a voz se calou coragem não veio. "E agora José?" E agora? Cadê o respeito?


Sobre a autora: Ana Lidia Resende Paula integra o grupo o BPS - Sociedade dos Poetas Brasileiros. Publicou em 2012, aos 12 anos, seu primeiro livro de poemas, Linhas Poéticas e em 2014 lançou o livro Poetguese - A Utopia Por um Mundo de Palavras - publicado em Nova York, pelo Lettrs, que reuniu textos de 84 jovens de todo Brasil.

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Edição de abril do Eco Performances Poéticas
10 de abril, sexta-feira, a partir das 19h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro. JF-MG)
Entrada franca
Evento no Facebook: http://on.fb.me/1F6BTq0


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Edição de abril: poetas convidados (parte 1)

Abrindo o elenco de convidados da edição de abril do Eco: Anelise Freitas



Foto: Paula Vasconcelos.


Por enquanto não há previsões de mudança, pode ser que eu morra na volta


Jailson Kokeru dizia naquela tarde azul
que nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde,
onde todos falavam português quatro horas por dia
(na escola) e crioulo na vida.
Os homens mais ricos daquela região
ainda andam sujos do serviço.
Dizia que em Angola e Moçambique se fala o português como unidade
e alguns dialetos em paralelo.
Naquela tarde azul descobri que Cabo Verde ainda guarda heróis
mais cheios de vida do que Vascos da Gama, Tiradentes
ou escritores em língua portuguesa de Portugal.
Falamos brasileiro, ora pois.
Isso não é um poema.

(Você sabe exatamente como eu fico.)

Já botei os dedos cruzados entre a boca e disse:
- Eu preciso dar um grito!

É isso.

- Leoa!,
é como te chamam quando cerra esses dentes
e fecha essa cara e pende
as sobrancelhas castanhas
e joga a juba para os lados e fuma

ou quando olha pra cima, vendo
o fogo pegar nos teus braços
e aponta pra mim e diz
: tu!
E os teus quilômetros de pescoço
e os teus lábios de Brando
e os nossos óculos iguais

e o que você queria que eu dissesse
com teus cabelos surrados?
O corpo curvado e a promessa dos seios;
O quê?

E quando eu digo que odeio Copacabana
você me agarra a boca e ri.

Eu sei de todo o teu corpo
(menos onde nasce esse sorriso
e como isso flutua no meu corpo
como a fumaça do Marlboro
vermelho (como a nossa pele)).

Leãozinho:
é fácil falar das coisas,
não é fácil sentir universos;
é fácil jogar com as palavras,
não é fácil sentir pessoas.


Sobre a autora: Anelise Freitas cursa Letras e mestrado em Teoria Literária na Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou os livros de poesia Vaca contemplativa em terreno baldio (Aquela Editora, 2011) e O tal setembro (Os 4 mambembes, 2013), além da plaquete Pode ser que eu morra na volta (Edições Macondo, 2015). É uma das organizadoras do Eco Performances Poéticas.

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Edição de abril do Eco Performances Poéticas
10 de abril, sexta-feira, a partir das 19h
Museu de Arte Murilo Mendes
(Rua Benjamin Constant, 790. Centro. JF-MG)
Entrada franca
Evento no Facebook: http://on.fb.me/1F6BTq0